ADIT: reinvenção

Atualizado: Set 14

A partir de 2011 e 2012 a ADIT iniciou definitivamente uma nova fase. Mais do que se adaptar, foi preciso se reinventar. O mundo que tinha gerado a ADIT tinha deixado de existir.


O mercado internacional de segunda residência, berço da entidade, não existia mais.


Com a nossa decisão de não mais captar recursos com o poder público, o nosso grande evento anual para mais de 1.000 pessoas com seminário, rodada de negócios e exposição não parava de pé.


Resolvemos, então, realizar diversos eventos menores e focados. O princípio por trás de tudo isso é que esses eventos deveriam focar em dois ingredientes básicos: conteúdo e network. A minha tese era de que no final das contas era isso o que as pessoas procuravam nos eventos. Com essa convicção, cortamos todos os custos possíveis, incluindo até canetas e pastas dos eventos.


Essa estratégia também fazia sentido porque com um grande evento anual de dois a três dias não conseguíamos abordar com profundidade a miríade de assuntos de todos os setores em que atuávamos. Os temas jurídicos, por exemplo, que só tinham duas ou três palestras no NORDESTE INVEST ou no ADIT INVEST, passaram a ter dois dias completos de palestras. A qualidade do conteúdo passou a ser outra.


Foi com essa idéia na cabeça que criamos o COMPLAN, nosso seminário sobre comunidades planejadas e desenvolvimento urbano. Nós já estávamos familiarizados com o tema pois a grande maioria dos projetos que gravitavam em torno da ADIT no Nordeste eram grandes complexos imobiliários e turísticos, o que nos levou a conhecer e visitar algumas das principais comunidades planejadas do mundo, seus developers e arquitetos.


Assim, começamos a promover esse conceito também para o mercado imobiliário nacional e não só para o turístico. E as coisas começaram a pegar tração. Foi no ADIT Invest de Fortaleza em 2011 que começamos a perceber que o apetite do mercado por esse produto era grande. Fizemos um painel de comunidades planejadas que foi o de maior audiência do evento.


Ali começamos a perceber que algo estava acontecendo e comecei a pensar na organização de um evento sobre o assunto, mas a ficha realmente caiu em São Paulo onde em apenas um dia me foram apresentados cinco diferentes projetos de comunidades planejadas pelo Brasil, indo do Rio Grande do Sul ao Pará. E o pior é que aquelas pessoas não tinha a menor noção do que estavam fazendo e do modelo de negócio de uma comunidade planejada.


Foi assim que resolvemos criar o COMPLAN.


Uma coisa interessante foi a definição do nome, pois todos os eventos da ADIT tinham e têm o seu nome, mas achamos o nome COMPLAN tão sonoro e adequado que acabamos adotando-o. Chegamos até a definir em Conselho pela mudança para outro nome, mas COMPLAN já tinha pegado.


Liguei então para Andrea Druck de Jurerê Internacional e falei que iríamos fazer um evento inteiro sobre comunidades planejadas lá em Jurerê. Ela brincou comigo se eu estava louco porque só existiam no Brasil Jurerê e a Riviera de São Loureço. Até hoje rimos disso.


Felizmente tudo correu bem e tivemos mais de 100 participantes no primeiro COMPLAN em 2011 em Jurerê. O evento foi um marco, unindo pela primeira vez essa indústria até então dispersa.


Durante o evento fizemos uma visita técnica à Cidade Pedra Branca, então em sua fase inicial de adensamento e consolidação. Dá gosto de ver no que ela se transformou. Tudo nascido do sonho, da visão e da paixão do Valério Gomes, que está implantando os melhores conceitos do urbanismo mundial em Palhoça/SC, demonstrando o quanto o setor privado pode contribuir para termos cidades melhores.


Durante esses anos de COMPLAN e demais ações como missões técnicas, livros e cursos, conseguimos deixar um grande legado para o Brasil. Conseguimos conscientizar milhares de empresários, arquitetos e funcionários públicos sobre as melhores práticas do urbanismo e como os próprios empresários podem ser agentes de mudança das cidades e muitas vezes o poder público, com suas regulações arcaicas e carregadas de ideologia, impede que as cidades sejam feitas para as pessoas.


Outro evento que criamos nessa fase foi o ADIT Share, outro grande sucesso. Desde o início da ADIT que gravitávamos em torno do timeshare, com a RCI tendo um importante papel na sua disseminação no Brasil.


Porém, nos anos 2000 o tempo compartilhado ainda era um conceito visto com desconfiança pelos empresários. De um lado, haviam existido alguns casos negativos entre as décadas de 80 e 90. De outro lado, ninguém queria pagar para ver.


Eu mesmo demorei anos até entrar no negócio, mas nesse período vi a indústria amadurecer fortemente. Haviam casos de sucesso, como Rio Quente e Beach Park, que por sua vez geraram um grande número de profissionais para a indústria. Softwares foram desenvolvido, dúvidas tributárias esclarecidas e consultorias se estabeleceram.


Com o timeshare também acontecia de ele ter apenas um painel ou no máximo dois nos grandes eventos da ADIT. Assim, pensamos em testar o apetite do mercado realizando uma mistura de missão técnica e seminário em agosto de 2013 no Rio Quente Resorts em Goiás.


Foi um grande ponto de partida para o setor. Todo mundo que atuava ou queria atuar compareceu. Se ainda não tinha o tamanho que passou a ter nos anos posteriores, os mais de 100 participantes já sinalizavam que mais uma vez tínhamos conseguido captar a temperatura do mercado e levantar uma bandeira que estava solta. Nos anos seguintes o evento e a atuação da ADIT no setor cresceram muito, com a entidade se consolidando como a sua representante no Brasil.


Naquela oportunidade o primo do timeshare começava a dar os seus primeiros passos. Conhecida então como fractional, fracionado ou cotas imobiliárias, a multipropriedade estava sendo inventada em Caldas Novas.


Com o mercado imobiliário em baixa e o estoque de flats em alta, os empresários locais que também trabalhavam com timeshare tiveram a idéia de aplicar o conceito do timeshare nos apartamentos. Deu mais do que certo e iniciou umas das grandes histórias de sucesso dos mercados imobiliário e turístico.


Para quem quiser conhecer melhor essa história, escrevi esse texto sobre a multipropriedade no Brasil: https://www.matx.com.br/post/uma-breve-biografia-da-multipropriedade-no-brasil


Desde o primeiro ADIT Share, o evento e o setor cresceram e se consolidaram enormemente mudando a cara do turismo no Brasil. Hoje a grande maioria do desenvolvimento de resorts e hotéis de lazer no Brasil têm o timeshare ou a multipropriedade com componentes-âncora.


Junto com outras ações, como lançamento de livros e cursos, conseguimos ajudar a organizar e profissionalizar o setor, evitando que acontecesse no Brasil a mesma coisa que aconteceu na Europa, onde alguns excessos acabaram com a indústria.


Para isso, sempre nos preocupamos em trazer empresários e líderes do setor do México e EUA para dividir suas experiências conosco, incluindo não só os sucessos, mas também os erros cometidos por esses mercados.


As iniciativas do SECOVI/SP, através do Caio Calfat, para a elaboração do Manual de Melhores Práticas e da Lei de Multipropriedades, mudaram a cara do setor e sempre contaram com a parceria da ADIT.


Um terceiro evento que criamos e que também teve um grande impacto no mercado imobiliário brasileiro foi o ADIT Juris. Ele nasceu do fato de que o maior desafio dos empreendedores ligados a ADIT era que seus projetos estavam muito à frente da legislação. Eram complexos de uso misto e imobiliários-turísticos, comunidades planejadas, multipropriedade, timeshare, licenciamento ambiental ou investimentos imobiliários que contavam com a grande criatividade dos advogados para ficar de pé, já que não havia legislação que os amparasse inteiramente.


Queríamos colocar os advogados realmente atuantes no mercado imobiliário para trocar experiências e dividir soluções jurídicas. Daí que veio o nome de ADIT Juris - Seminário de Soluções Jurídicas para o mercado imobiliário.


Para isso, contatamos as empresas e pedimos a elas que indicassem seus advogados e escritórios jurídicos. Nosso foco não eram os acadêmicos, mas aqueles que realmente faziam o mercado na prática, tanto que uma das nossas inovações foi a apresentação de cases jurídicos de empreendimentos imobiliários.


Outro grande objetivo era dar vez e voz aos talentos que existiam por todo o Brasil, mas que não eram reconhecidos nacionalmente por atuarem fora do eixo Rio-São Paulo, como é o caso da minha amiga Rita Martins. Minha satisfação é imensa quando vejo alguns desses advogados não só valorizados, mas com clientes em todo o Brasil


Mas o maior legado do ADIT Juris foi o de ter sido o berço do IBRADIM, o Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário, que apenas dois anos após a sua fundação já reune aproximadamente 1.500 integrantes de todo País, fruto de uma liderança diferenciada dos amigos André Abelha, Bernardo Chezzi e Olivar Vitale, entre tantos outros. Como eu disse no seu lançamento no ADIT Juris de 2018, o mercado imobiliário vai ser dividido em antes e depois do IBRADIM.


Outra inciativa de muito sucesso nesse período foram as missões e visitas técnicas que realizamos, com destaque para as de comunidades planejadas dentro e fora do Brasil.


Realizamos várias missões técnicas para os Estados Unidos, onde visitamos empreendimentos na Flórida, Alabama, Geórgia, Carolina do norte e Carolina do sul. Organizamos seminários e cursos com alguns dos maiores nomes do urbanismo mundial da Universidade de Miami, além de termos participado de várias edições do CNU - Congresso do Novo Urbanismo.


Já na Europa, voltamos a visitar Portugal duas vezes e realizamos missões técnicas para a Inglaterra e Escandinávia.


No Brasil, fizemos várias visitas técnicas às melhores comunidades planejadas e loteamentos do Brasil.


As missões e visitas técnicas que realizamos são as ações que mais gosto. São verdadeiras experiências de vida que os participantes nunca esquecem. Nelas sãos forjadas amizades para o resto da vida, realizados muitos negócios e voltamos a viver um pouco do espírito juvenil, viajando de ônibus e convivendo por vários dias com as mesmas pessoas.


Aprendi que as melhores lições que temos nas missões técnicas acabam nãos sendo dos empresários e especialistas internacionais que visitamos, mas dos próprios brasileiros que viajam conosco. Cada participante tem uma experiência de vida e expertise diferentes e os bate-papos e reuniões durante essas viagens são um grande aprendizado para todos.


Outra iniciativa marcante desse período foi a criação do Prêmio Legado ADIT – Uma vida que vale à pena ser vivida, onde homenageamos grandes nomes dos setores em que atuamos, como Luiz Carlos Pereira de Almeida, da Sobloco/Riviera de São Lourenço, Péricles Druck, da Habitasul/Jurerê Internacional, Renato Albuquerque, do Alphaville, Romeu Chap Chap, do Secovi/SP, Roland de Bonadona, da Accor e Sylvio Capanema e Marcelo Terra, mestres do direito imobiliário.


Desde a sua criação a ADIT passou por diversos e variados desafios. Conseguiu superar todos e crescer na adversidade, demonstrando uma grande capacidade de adaptação às inevitáveis mudanças e ameaças que sempre surgem na vida de qualquer organização.


Teve também o mérito de conseguir antever tendências e enxergar além da curva, atuando com importantes setores dos mercados imobiliário e turístico que não estavam sendo representados por nenhuma entidade.


As conquistas foram muitas, mas uma da qual me orgulho especialmente foi o descobrimento de talentos alagoanos. Em algum momento fizemos um experimento trazendo para o time experimentados executivos do eixo Rio-São Paulo, mas a tentativa foi um fiasco. Falta de comprometimento, agenda própria, autopromoção e desconhecimento da cultura da ADIT foram alguns dos problemas.


Essa experiência só demonstrou a importância de investirmos na turma de Alagoas. Eu tinha convicção de que haviam muitos talentos fora das grandes capitais e o que faltava era a oportunidade de eles desabrocharem.


Felizmente, a minha tese se provou correta e até hoje várias gerações de profissionais já passaram pela ADIT sempre mantendo o mais alto nível, sem dever nada a qualquer equipe nacional ou internacional. Ao contrário, foram vários os casos de entidades que nos procuraram para saber como conseguíamos fazer tanto com tão pouco. Um outro efeito colateral é o constante assédio do mercado, inclusive associados e concorrentes, em relação aos nossos colaboradores.


Assim, foi com sentimento de dever cumprido e com a certeza de que a entidade estava madura para caminhar com suas próprias pernas que passei ao Caio Calfat a presidência da ADIT em 2019, depois de 13 anos à sua frente. A entidade estava no auge, tanto financeiramente, quanto em termos de visibilidade e representatividade.


Muitas pessoas me perguntavam porque eu estava fazendo isso nesse momento tão bom e eu respondia que era exatamente por isso que eu estava passando a bola para frente.


O meu plano sempre foi ficar dois ou no máximo quatro anos à frente da entidade, mas as diversas crises e os apelos dos colegas do Conselho de administração foram sempre fazendo eu ficar. Não gosto de entidades que têm presidentes que se perpetuam à sua frente. Nunca tive necessidade ou vontade de exposição ou poder. Talvez isso tenha sido parte do sucesso e da coesão da entidade.


Durante todo esse tempo a ADIT e o Felipe se confundiam. Talvez tenha sido necessário naquele momento, mas agora é chegada a hora do filho deixar o lar e seguir com sua própria vida, tomando suas decisões, errando e acertando. Continuarei dando conselhos, como Presidente de honra, mas novas gerações chegarão, levando-a a novas dimensões.


Meu sonho é que a ADIT construa a sua história e que daqui há algumas décadas eu seja apenas mais um dos nomes, entre tantos, que contribuíram para ela ser uma grande entidade nacional. Nesse momento estarei realizado.



61 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

© 2020, Matx Academy | E-mail: marketing@matx.com.br