Como deixar de fazer coisas que nos causam mal e adquirir novos hábitos

Atualizado: Set 17

Um belo dia em setembro de 2019 eu me perguntei porque eu fazia coisas que me causavam mal.

Não era uma pergunta nova. Ao longo dos anos eu já tinha me deparado com ela. Não só eu, mas os seres humanos de maneira geral têm uma tendência a fazer coisas que são negativas para eles. Essa é a maior prova de que não somos racionais, pois se fôssemos só faríamos coisas em nosso benefício.

A mente humana nos prega muitas peças e muito disso se explica pelo processo evolucionário. Nossa estrutura social, necessidades, desejos e tecnologias mudaram dramaticamente nas últimas centenas de anos e a nossa mente ainda não conseguiu se adaptar, fazendo com que continuemos a agir no piloto automático mesmo quando a ação nos prejudica.

Com tudo isso em mente, sem trocadilhos, eu me fiz uma série de desafios para deixar de fazer as coisas que me faziam mal.

Uma dessas coisas era beber álcool. Se eu tomasse duas taças de qualquer bebida eu dormia muito mal, passava o dia seguinte em estado de penúria e geralmente era o gatilho para eu ficar doente com a garganta inflamada. Com vinho tinto era necessária apenas uma taça. Cerveja era geralmente intragável e me deixava empachado. As únicas bebidas que tinham a minha simpatia e que meu organismo aceitava melhor eram a vodca (bendita caipirosca!) e o espumante, mas, mesmo assim, somente se eu as bebesse durante o dia. Se fosse de noite o problema era o mesmo.

Sem sombra de dúvidas que deixar de beber álcool é um grande desafio e não falo apenas em relação à dificuldade de abstinência para quem bebe muito, mas pelo papel central que ele exerce nas atividades sociais, seja em um jantar, comemoração, churrasco ou casa de praia.


Você é envolvido e praticamente obrigado pelas convenções sociais a beber. Isso sem contar o quanto a bebida alcóolica ajuda em ficarmos desinibidos e sociáveis.

Outra bebida com a qual eu não me dava bem era o café. Café preto então, nem pensar. Só de sentir o cheiro o meu estômago embrulhava. Por outro, lado eu adorava café com leite, especialmente no café da manhã. Mas o problema é que eu tenho refluxo e o café é uma bomba no organismo de quem tem refluxo.

Também devido ao refluxo, mas pensando também no controle de peso, o refrigerante era um grande inimigo a ser combatido. A quantidade de açúcar de um refrigerante é brutal e o mal que ele faz proporcional.

Para terminar a lista havia o pão. Sou fissurado por pão. Um tarado. Mas era somente eu ficar uma semana sem comer pão que eu via automaticamente o reflexo positivo no meu abdômen.

Então, devido a esses fatores resolvi que não iria mais comer pão ou beber café, refrigerante e bebidas alcóolicas. Mais fácil de dizer do que que fazer, até pelo papel central que eles desempenham em nossa sociedade e por serem uma grande fonte de prazer. Tudo gira em torno deles em nossa vida, ou pelo menos na minha vida era assim.

Mas não parou por aí, pois meu objetivo não era deixar de comer ou beber esses alimentos, mas me tornar uma pessoa mais saudável. E para isso, deixar de ingerir calorias é um passo fundamental, mas não o único. Era preciso também gastar mais caloria do que ingeria. E para isso tinha que fazer algum exercício ou esporte.

Andar na bela praia de Maceió seria o mais fácil. De graça, acessível e sem exigir equipamentos. Mas era muito chato e depois de uns dois meses eu sempre desistia. Não haviam metas, desafios ou sociabilização envolvidas.

Dar o próximo passo e correr era o candidato natural, mas haviam alguns problemas. Em primeiro lugar, eu não gostava. E quando você não gosta ou não tem interesse, não adianta insistir. Agregado a isso, meu corpo não se dava bem com a corrida. Eu já tinha tentado por décadas, mas sempre tinha problema com a sola do pé, a batata da perna ou com o joelho. Algumas vezes com um deles e outras com os três juntos.

Apesar de ter sido nadador na adolescência, a natação não me atraía, por ser monótona e por não deixar a minha mente se distrair, pois, enquanto nadava, ficava pensando em todo tipo de coisas do trabalho e problemas.

O tênis foi uma descoberta recente que adorei. Vi que levava jeito e que tinha dom para a coisa. Treinei por apenas um ano e meio, mas nesse período jogava de igual para igual com jogadores da terceira classe, ganhando deles com frequência nos treinos, mesmo sem nunca ter participado de campeonato e de não pertencer nem à quinta classe. O que eu gostava no tênis era a importância da visão de jogo e o jogo mental, dois pontos positivos que possuo. Porém, apesar de adorar, o tênis estava mais para recreação do que para uma atividade física para perder peso e melhorar o condicionamento e precisei continuar pensando em outra alternativa.

Foi aí que a minha irmã me apresentou ao Crossfit. Minha imagem dele era muito negativa. Eu seguia nas mídias sociais alguns amigos que o praticavam e todas as fotos mostravam pessoas musculosas levantando peso. Não era a minha cara.

Mas a minha irmã revelou uma outra cara do Crossfit, mostrando que além do desenvolvimento muscular, ele também trabalhava diversas atividades aeróbicas, além de ser uma atividade em grupo, social. Resolvi encarar o desafio.

Assim fui colecionando desafios. Com o sucesso inicial, adotei outros, como passar seis meses lendo apenas livros de psicologia, não deixar papéis ou objetos na sala para deixa-la organizada, não comer doces na sobremesa e, o mais importante, não digitar mensagens enquanto dirigia.

Tive vários pequenos sustos ao digitar dirigindo. A atração do celular é muito grande. Eu comecei a ter consciência de que era muito provável que eu morresse ou tivesse um acidente de carro por digitar dirigindo. Foi aí que eu me perguntei porque estava fazendo algo que poderia me matar. Será que responder aquela mensagem do fulano valia a minha vida? Com a resposta óbvia acrescentei mais um desafio à minha lista.

Passados um ano do início da jornada, estou feliz por ter superado a maioria desses desafios. Fazem doze meses que não bebo álcool, café ou refrigerante, nem como pão. Parecia impossível, mas hoje em dia não sinto nenhuma falta e nem penso a respeito.

Outros desafios infelizmente foram afetados pela pandemia. Durante meses pratiquei o Crossfit. O início foi duro, mas aos poucos o corpo foi se acostumando. Cheguei a perder 12 quilos e o condicionamento físico era outro, mas com a pandemia tive que parar e não consegui manter a rotina de treinos em casa.

A mesma coisa aconteceu com as sobremesas. Como eu trabalho em um resort, o ILOA, todos os dias eu almoçava ao lado da mesa de doces. A tentação era muito grande, mas ainda assim por vários meses consegui incorporar o novo hábito. Infelizmente não consegui mantê-lo durante a quarentena, pois incorporei o novo hábito de comer chocolate depois do almoço.

Quanto aos livros de psicologia, segui à risca o desafio e li inúmeros entre janeiro e junho de 2020, mas apesar de adorar o assunto e ter aprendido muito, tem uma hora que “enough is enough” e agora estou na ressaca lendo livros mais leves para relaxar. Desde julho li cinco livros por mês de romance, biografia e história, em sua grande maioria. Recomendo muito esse intensivo de leitura de um determinado assunto quando alguém quiser se aprofundar em algum assunto. O foco é tudo.

Quanto a deixar papéis e objetos na sala, incorporei tanto o hábito que nem me lembrava mais que tinha feito esse desafio! Só lembrei porque revi as anotações para escrever esse texto.

Já em relação a digitar dirigindo consegui reduzir em uns 90%, mas não consegui zerar. Geralmente estou usando menos para mandar mensagens e mais para anotar idéias ou tarefas para não esquecer, e tento fazer isso quando o carro está parado em sinais de trânsito.

No frigir dos ovos, os resultados foram muito positivos e junto com eles vieram as lições e aprendizados, que faço questão de dividir com vocês agora: · A maior dica que posso dar é que você não deve mais dar tanta atenção às metas. Em vez de buscar alcançar determinados resultados, você deve procurar mudar a sua identidade e se perguntar qual é o tipo de pessoa que você quer se tornar. Você não está querendo perder 10 quilos, você está se transformando em um atleta. E sempre que estiver em tentação, pergunte-se se o que está prestes a fazer lhe aproximará ou lhe distanciará da pessoa que você está querendo se tornar.


· Da mesma maneira, em vez de focar em metas, você deve pensar em termos de processos e sistemas. Você não quer perder 10 quilos, mas deixar de comer pão e treinar todo dia, por exemplo. O resultado chegará de maneira muito mais definitiva.


· A vontade é importante, mas precisamos de muito mais. A rotina e o ambiente podem ser seus melhores amigos ou inimigos. Durante toda a minha vida, as viagens foram o maior problema para me manter em dietas ou fazendo exercícios físicos. Controlar o ambiente e a rotina é meio caminho andado.


· Passei a mudar o foco das metas para o longo prazo, sempre 1 ou 10 anos, e não mais um ou três meses. Isso é importante porque sempre iremos fraquejar no meio do caminho. Se pensarmos no longo prazo, em quem queremos nos tornar e não em uma meta de curto prazo, iremos nos recompor das falhas e retornar ao caminho, pois sabemos que temos tempo para chegar onde queremos chegar.


· Um grande inimigo da redução de peso é o famoso “Foda-se! Eu mereço! ”. Até hoje eu ainda não consegui doma-lo no que refere a comer. Esse fenômeno é também cada vez mais presente no que refere a compras e viagens. Trabalhamos e nos esforçamos muito e tem uma hora que o “Eu mereço! ” se impõe.


· Um dos motivos que priorizei a abstenção de pão, café, e refrigerante é que eles são alimentos e bebidas de consumo diário, causando mais impacto negativo à saúde. Eu não deixei de comer doces, pizza, salgadinhos ou bolos, por exemplo, mas como eles eventualmente em momentos específicos, com impacto muito menor na saúde.


· Finalmente caiu a ficha em mim de que não adianta fazer esporte ou atividade física duas ou três vezes por semana, como eu fazia antes. A criação de hábitos e o resultado em nossa saúde só chegam se fizermos exercícios diariamente. Não tem outro jeito.


· Alguns especialistas falam que o hábito se cria em torno dos 30 dias, enquanto outros afirmam que se dá em torno dos 60 dias. Não sou cientistas, mas pela minha experiência nenhum hábito fica incorporado com apenas 30 dias. Meu feeling é que ele começa a virar piloto automático a partir dos 90 dias.


· O importante é a pessoa chegar ao momento onde ela não gasta mais energia decidindo se ela vai ou não fazer algo. Nesse momento, o hábito está consolidado.


· É importante ter a ajuda de empurrõezinhos, ou Nudges, como prefere falar o pessoal da economia comportamental. São pequenos incentivos, coisas como deixar alimentos saudáveis à vista e alimentos “engordativos” escondidos da visão.


· Se você está querendo mudar de hábitos como deixar de beber e fazer atividade física isso significa que você vai certamente precisar arrumar novos amigos. Se seu ambiente é formado por pessoas que valorizam a bebida e atividades sociais que girem em torno dela, você não vai conseguir, infelizmente. A âncora social e o senso de pertencimento ao grupo serão mais fortes e você precisará se cercar de pessoas que são como você quer ser, os novos colegas do esporte que você está começando a praticar, que reforçarão uma determinada conduta.


· Faça pouco, mas faça. Se não tiver disposição para fazer 30 abdominais faça 5. Se não tiver disposição para ficar uma hora na academia, fique 10, mas vá. O importante aqui não é quantidade, mas você não quebrar a rotina e dizer orgulhoso para si próprio que é o tipo de pessoa que não falha ao compromisso.


· Monitore seus hábitos e desafios. Pode ser diariamente ou mensalmente. Eu comecei monitorando mensalmente, anotando em meu bloco de notas, mas depois descobri uma série de aplicativos de monitoramento de hábitos que podem ser muito úteis, especialmente no início quando o desafio é diário. Claro que depois de um tempo, quando os hábitos estão incorporados, eles passam a não ser mais necessários, salvo se você quiser contar quantos dias ou meses você está andando na linha.


· Durante toda a minha vida o fator que mais me levava a desistir de uma dieta era quando eu saia do regime ou deixava de praticar atividade física por alguns dias. Eu me achava um fracasso e desistia. Dessa vez caiu a ficha de que isso sempre vai acontecer. Não é razoável esperarmos que nunca vamos sair da dieta ou perder um dia de exercício. O que devemos fazer é simplesmente voltar ao regime e aos exercícios no dia seguinte. Simples assim. E isso tudo fica facilitado quando temos um horizonte de uma ou dez anos e não uma meta mensal de emagrecimento.


· Quem dorme bem não sabe o quão abençoado é. Meu sono é instável, o que se torna um grande obstáculo não só para as atividades físicas, como para qualquer dieta. Do lado das atividades físicas, acordo muitas vezes indisposto e sem um horário definido. Do lado do regime, ao dormir mal a pessoa fica sem energia para lutar contra as tentações. Por isso, encaro como fundamental para qualquer mudança de hábito uma boa noite de sono.

Essas foram as minhas lições desse primeiro ano de mudança não de hábitos, mas da minha identidade. Nesse período as tentações foram muitas, mas confesso que hoje em dia nem cogito a possibilidade de beber álcool, café e refrigerante ou comer pão. É algo totalmente fora da minha realidade e espero que continue a ser assim, pois eu só tenho a ganhar. Agora a hora é encarar novos desafios procurando me tornar uma pessoa cada vez melhor.



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