Conheça o Estoicismo, a filosofia prática que ajuda a lidar com a adversidade

Vez ou outra eu ouvia falar de estoicismo ou dos estoicos, mas não tinha idéia do que se tratava. Aliás, achava que sabia: seria apenas mais uma dentre tantas escolas filosóficas do passado, morta e enterrada e sem lugar nos dias atuais.

Eu não podia estar mais equivocado.


Aos poucos fui me deparando mais e mais com o estoicismo nas mídias sociais, especialmente no Twitter, e comecei a me surpreender ao me deparar com tanta sabedoria prática e aplicável ao nosso dia-a-dia. Daí para os primeiros livros foi um passo.


Eu confesso que nunca fui muito com a cara da filosofia e de filósofos, apesar de ter lido vários dos principais nomes na época da faculdade, quando eu cheguei a ficar metade do curso sem televisão em casa apenas para ler e não ter minha atenção desviada.


Como eu não tinha dinheiro para comprar livros, acabei lendo e relendo uma coleção de filósofos que ganhei de um parente. Nietzsche era um dos mais lidos, mas o problema é que os textos eram muito rebuscados, de difícil compreensão e pouco aplicáveis ao dia-a-dia.


Por ter começado a empreender desde muito cedo, aos 22 anos, também não valorizava aquela turma que ficava discutindo questões teóricas e cheias de volta, que não chegavam a lugar nenhum.


Com o passar dos anos a minha má vontade com a filosofia foi aumentando após eu me aprofundar na psicologia, aí sim uma matéria com ampla aplicação prática e que nos permitia conhecer melhor o funcionamento da mente humana e com isso não só ter uma vida melhor, mas que também nos oferecia conhecimentos que poderiam nos ajudar no mundo professional, seja no marketing, nos relacionamentos, nas negociações ou na persuasão, entre outros tantos campos onde podem ser aplicadas.


Mas aí veio a descoberta do Estoicismo e a descoberta de que eles são sim uma filosofia das coisas práticas, que trata de questões atemporais e que continuam a gerar grande aflição ainda hoje, como emoções negativas, lidar com adversidades, autoconhecimento e direcionamento de energia para o que realmente importa.


Para os Estóicos não existe sentido em apenas pensar. É necessário agir. Não é uma doutrina para aquelas pessoas enfadonhas e pedantes que adoram demonstrar a sua superioridade intelectual com palavras difíceis e frases incompreensíveis.


Meu interesse pelo Estoicismo aumentou ainda mais quando li a respeito e percebi as similaridades com escolas psicológicas que admiro fortemente como a Logoterapia de Victor Frankl e a Terapia Cognitivo-Comportamental de Aaron Beck e Albert Ellis.


Mas voltando um pouquinho no tempo, o Estoicismo foi fundado em torno de 301 a.c. por Zenão de Cício e leva esse nome devido ao local onde se reuniam, o Stoa Poikile, um mercado público em Atenas. Outro nome importante desse início foi Crisipo, a quem se acredita ter sido o responsável pela elaboração da maior parte da doutrina associada ao Estoicismo.


Mas o Estoicismo é realmente conhecido hoje devido aos escritos deixados por alguns expoentes romanos, como Rufus, Seneca, Epicteto e, especialmente, Marco Aurério, o imperador romano que anotava em seu diário os seus pensamentos sobre a doutrina e que é ainda hoje amplamente lido com o nome Meditações.


Vários são os motivos que levam o Estoicismo a não só sobreviver, mas sobreviver bem ao teste do tempo, estando cada vez mais se tornando parte do mainstream. Seus ensinamentos estão repletos de bom senso e dicas práticas de como conduzir a vida.


Focar naquilo que podemos controlar em nossas vidas, valorizar o que a pessoa faz e não o que diz, aceitação do destino, desvalorização das paixões, se tornar imperturbável através de uma mente calma e racional são algumas de suas características. Tudo isso tem como resultado o aprendizado sobre como lidar com ansiedade, o stress e as emoções negativas.


Um componente fundamental do Estoicismo é a crença de que devemos nos focar no que podemos controlar e na nossa resposta ao que acontece conosco. Não podemos gastar energia no que acontece conosco e que não controlamos, mas podemos escolher como reagir a isso. Precisamos nos concentrar no que podemos controlar e aceitar o que não está ao nosso alcance. Uma vida focada no que não podemos controlar é uma vida de sofrimento e angústia.


A vida simplesmente não está nem aí para o que acontece conosco, sobre nossos sonhos e planos e devemos desenvolver a habilidade de transformar obstáculos em oportunidades.


Na visão deles, não é possível alcançar uma boa vida apenas ruminado, pensado e falando. É necessário agir para se ter uma vida plena. E não apenas agir de qualquer maneira, mas agir na direção certa, na direção que nos leva a ser a pessoa que queremos nos tornar e em direção à vida que queremos ter.


Não adianta falar para sua esposa que você a ama se suas ações contam uma história diferente. Não adianta dizer que você será um grande músico se você não treina várias horas por dia. Não adianta afirmar que você um bom cristão, mas maltratar e humilhar outras pessoas.


Todos sabemos em teoria o que é ser bom e decente. Todos já ouvimos inúmeras vezes conselhos e orientações sobre como agir em meio à adversidade, mas poucos conseguem colocar essa sabedoria em prática. E é aqui que o Estoicismo pode nos ajudar.


Uma das técnicas utilizadas pelos Estóicos é a Premeditação dos males, o exercício de imaginar o que de ruim pode nos acontecer e de como podemos nos precaver e preparar. Com isso estaremos melhor preparados para lidar com as adversidades.


Por outro lado, sempre acontecerão fatos imprevisíveis. Não temos como evita-los, mas podemos nos preparar para lidar melhor com eles. O Estoicismo treina a mente para lidar com esse tipo de adversidade com o objetivo de sofrermos menos.


Escrevi recentemente um outro artigo sobre técnicas de criação de hábitos e um dos pontos que levantei era a importância de não focarmos tanto nas metas, mas no processo. Para minha surpresa descobri que essa é também uma idéia defendida pelos Estóicos. Ou seja, temos controle sobre o que fazemos, mas não sobre os resultados, que são influenciados por inúmeros outros fatores fora da nossa influência.


Não só isso, mas também a percepção de que fatos imprevistos irão sempre acontecer. Eles são a regra e não a exceção. Por isso, nossos objetivos devem sempre envolver questões internas sobre as quais temos controles.


Transformar o limão em limonada também é outra ideia defendida pelos Estóicos. Coisas ruins acontecem conosco, mas sempre podemos transformá-las em algo positivo, dependendo da maneira com que lidamos com elas e como as julgamos e interpretamos. Essa é uma idéia central em minha vida. Eu procuro automaticamente por vantagens ou pontos positivos em tudo de ruim que acontece comigo. Muitas vezes não conseguimos ver isso de imediato, mas com o passar do tempo vemos que foi aquela coisa negativa que aconteceu conosco que nos tornou quem somos e nos fez chegar até aqui.


Devido ao modo desapaixonado com quem lida com a vida e à defesa da calma perante situações tensas e difíceis, existem várias brincadeiras de que o Dr. Spock seria estóico. Se a caricatura estica a corda sobre o que é ser estóico, realmente ela aponta para a direção certa.


Eu mesmo sempre tive essa característica de reagir com calma e frieza a momentos de tensão. Sempre defendi que é o momento em que mais precisamos ter clareza de pensamento e julgamento. Entendo que isso é um superpoder, pois se conseguimos ficar imperturbável perante uma situação e uma outra pessoa se deixa sair do controle emocional, claramente teremos uma vantagem sobre ela.


Para finalizar, realço uma das críticas feitas ao Estoicismo, que é exatamente a falta de paixão e energia, tão necessária para a criação, a construção, para se transpor limites e para tornar a vida bela. Concordo com isso. Para mim, o Estoicismo funciona como uma defesa de time de futebol, nos protegendo de coisas ruins e nos ajudando a lidar melhor com elas. Por outro lado, ele não tem a vocação de um centroavante, fazedor de gols e que nos leva à vitória.


Tendo isso em mente, e reforço que é apenas uma opinião pessoal, devemos aproveitar dele o que tem de melhor e o que faz sentido para a personalidade de cada um, pois dominar essa arte levará sem sombra de dúvidas a uma vida com menos sofrimento e mais paz de espírito.



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